por enrico pierro
todo santo dia, na mesma hora, os quatro se organizam na
porta pra esperar a comida. não adianta eu estar atrasado, com a cabeça em
outro lugar, discutindo comigo mesmo algum problema que parece do tamanho do
mundo. eles estão ali, sentados, olhando pra porta com uma expectativa tão
inteira que chega a doer de tão simples. nenhum deles carrega a discussão de
ontem. nenhum deles antecipa a de amanhã. existe só a fome de agora, a porta de
agora, a alegria de agora.
eu invejo essa economia emocional deles, sinceramente. eu
levo a mesma mágoa por semanas, remoendo ela em ângulos diferentes, cada um
mais desgastante que o outro. eles brigam, rosnam feio um pro outro por causa
de um brinquedo, e cinco minutos depois estão deitados encostados, como se o
rosnado tivesse acontecido numa vida anterior. não é que eles esqueçam por
burrice. é que eles não carregam o passado como peso, só como aprendizado
rápido, e seguem.
tem uma cena que se repete muito aqui em casa: eu chego
cansado, de mau humor, arrastando um dia ruim pela casa inteira, e algum deles
vem esfregar a cabeça na minha perna, sem nenhum motivo lógico, sem retribuição
esperada, só porque sim. não é estratégia, não é cálculo. é presença pura, o
tipo de coisa que eu, com toda a minha capacidade de escrever sobre sentimento,
ainda erro na hora de oferecer de graça.
confesso que já tentei imitar. já tentei chegar em casa e
decidir, na marra, que aquele dia ruim ia ficar do lado de fora do portão, do
jeito que eles parecem fazer com tanta naturalidade. funciona umas vezes. na
maioria, eu carrego o dia inteiro pra dentro de casa, converso com ele até
tarde, e só de madrugada, olhando pra algum deles roncando tranquilo aos meus
pés, é que eu lembro que existe outro jeito de viver um dia difícil.
não sei se um dia eu vou aprender de vez o que eles sabem
sem esforço nenhum. mas toda vez que um deles esquece uma briga em cinco
minutos, ou espera a comida sem nenhuma ansiedade sobre o futuro, eu anoto
mentalmente que ali, naquele focinho descansando no meu colo, existe uma aula
que eu ainda não terminei de fazer.
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